Encontro promovido pela ANL reuniu livreiros, editores e especialistas em dois dias de debates sobre sustentabilidade, bibliodiversidade, comunidades leitoras e futuro do setor
São Paulo, setembro de 2026 - Mais do que espaços de venda, as livrarias são lugares de encontro, formação de leitores e construção de vínculos com as cidades e as comunidades onde estão inseridas. Essa percepção atravessou os dois dias da 34ª Convenção Nacional de Livrarias, realizada em 2 e 3 de setembro, no Distrito Anhembi, em São Paulo, pela Associação Nacional de Livrarias (ANL).
Com o tema “A Livraria como Lugar de Encontro”, o evento reuniu livreiros, editores, pesquisadores e profissionais da cadeia do livro para discutir questões que vão da sustentabilidade dos negócios e das políticas de descontos à bibliodiversidade, ocupação dos espaços urbanos, clubes de leitura e formação de novos públicos. Pela primeira vez, a curadoria da programação foi construída por livreiros independentes e de rua, aproximando os debates dos desafios vividos diariamente pelo setor.
Para o presidente da ANL, Alexandre Martins Fontes, a diversidade das experiências apresentadas ao longo dos dois dias mostrou que, embora cada livraria tenha sua identidade e enfrente realidades distintas, o fortalecimento do setor depende cada vez mais da capacidade de atuar coletivamente.
“Saímos desta convenção com uma certeza ainda maior de que as livrarias têm um papel que ultrapassa a comercialização do livro. São espaços que formam leitores, movimentam a cultura, criam vínculos com seus territórios e ajudam a manter viva a bibliodiversidade. Reunir experiências tão diferentes também mostra que os desafios são grandes, mas que temos um setor disposto a dialogar, compartilhar soluções e construir caminhos coletivamente”, afirma Alexandre Martins Fontes.
O primeiro dia começou com uma das perguntas mais difíceis para quem trabalha no setor: por que as livrarias nascem e por que elas fecham? Elisa Quadros, da Lucia Livraria, e Guilherme Ramos Martinato, da Livraria do Arco da Velha, mostraram que a sobrevivência desses negócios passa pela capacidade de ir além da venda e construir experiências relacionadas ao perfil de cada público e território.
Criada em Iriri, balneário de Anchieta com três mil habitantes, no litoral sul do Espírito, a Lucia nasceu com a proposta de reunir livros, encontros, festas e convivência. Elisa falou também sobre a dedicação exigida de quem escolhe a profissão. “Nunca fui tão feliz como livreira, mas também sei o preço que meu corpo e minha mente pagam ao continuar exercendo essa função. É um trabalho que exige muito da gente, física e mentalmente”, disse Elisa Quadros.
A trajetória da Livraria da Travessa trouxe outra perspectiva ao debate. Rui Campos destacou a perseverança como um dos elementos fundamentais para manter uma livraria e defendeu a diversidade editorial. “O livro físico é uma paixão que derrubou todas as distopias que foram anunciadas”, afirmou. Para ele, preservar a força do livro também significa garantir que diferentes obras encontrem espaço: “Todo livro tem que existir. Tem que haver essa bibliodiversidade”, pontuou Rui Campos.
A relação das livrarias com os territórios apareceu em diferentes momentos da programação. João Varella, da Banca Tatuí e da Livraria Gráfica, apresentou experiências como o Mapa das Livrarias de Rua de São Paulo e a Noite das Livrarias, iniciativas que conectam estabelecimentos independentes e estimulam o público a circular pela cidade.
O tema ganhou novos contornos na conversa entre Yara Hwang, da Livraria Aigo, e o arquiteto e urbanista Nabil Bonduki. Instalada no Bom Retiro, a Aigo procura integrar sua atuação à dinâmica do bairro, indicando outros estabelecimentos e estimulando os visitantes a conhecer a região. “A livraria de rua não é uma moda, mas um assunto que está efervescente. O mapa contribuiu para aumentar o fluxo e também para ampliar o contato com outros livreiros”, observou Yara.
Bonduki relacionou a sobrevivência desses estabelecimentos à própria qualidade das cidades. Para ele, bairros caminháveis, seguros e com circulação de pessoas favorecem o comércio de rua e a convivência. “A livraria não pode ser entendida como qualquer outro comércio. Ela tem outro papel, é um lugar que tem alma, que promove encontros, conversas e relações”, disse.
Ainda no primeiro dia, os impactos de feiras e políticas de descontos mobilizaram Eliete Cotrim, da Editora 34; Marcio Pelozio, da Festa do Livro da USP; Paulo Werneck, de A Feira do Livro; e Leo Wojdyslawski, da Livraria Eiffel. Entre diferentes perspectivas, o diálogo entre os agentes da cadeia apareceu como condição para construir soluções que conciliem acesso, sustentabilidade e valorização das livrarias.
No segundo dia, o debate avançou sobre uma questão essencial: como aproximar pessoas dos livros e transformar leitores em comunidades? Adalberto Ribeiro, da Livraria Simples, apresentou uma experiência que leva milhares de livros para o espaço público e procura envolver quem vive e trabalha no entorno. “Não existe não leitor. Todo mundo lê, algumas pessoas apenas ainda não desenvolveram o hábito da leitura”, afirmou.
Os clubes e círculos de leitura mostraram como encontros regulares podem transformar a relação com a literatura. Alessandra Effori, da Livraria Bibla, contou que seu clube começou com cinco pessoas e atualmente reúne cerca de 50 participantes. Luciana Gil, também da Bibla, resumiu a dimensão dessas experiências: “Estamos falando de livros, mas, principalmente, estamos falando de gente.”
A educadora, gestora da Rede LiteraSampa e ligada a redes de bibliotecas comunitárias e periféricas, Bel Santos Mayer ressaltou que a formação de leitores precisa ser tratada como processo permanente. “Sem um plano, não seremos um país de leitores. Se não planejarmos como vamos ler, também não conseguiremos formar leitores”, disse a gestora da LiteraSampa.
A formação desde a infância entrou em pauta com Jessica Nolte, da Casa Cosmos, e Julia Souto, da Livraria Miúda. As duas defenderam uma curadoria infantil baseada menos na quantidade de títulos e mais na diversidade e na qualidade das escolhas. “Bibliodiversidade não significa ter uma quantidade imensa de livros”, sintetizou Julia.
O olhar internacional veio com Laura Forni, da Cámara Argentina de Librerías Independientes (CALI), que apresentou a experiência de mobilização das livrarias argentinas e discutiu mecanismos de proteção à atividade.
Laura destacou a importância de políticas que reconheçam a contribuição de todos os agentes responsáveis por fazer o livro chegar ao leitor. Segundo ela, medidas relacionadas ao preço podem repercutir sobre a sustentabilidade das pequenas livrarias e editoras e a formação de novos públicos.