Perspectivas para 2026

Perspectivas para 2026: livrarias projetam crescimento, mas alertam para concorrência desleal e risco de concentração do mercado

São Paulo, março de 2026 – As livrarias brasileiras iniciaram 2026 com expectativas moderadamente positivas, mas sob forte alerta: a expansão agressiva das grandes plataformas digitais já se consolidou como o principal fator de pressão competitiva sobre o setor. Segundo pesquisa da Associação Nacional de Livrarias (ANL), 85,2% dos livreiros apontam a concorrência desigual com gigantes do e-commerce como maior desafio, superando com grande margem preocupações como custos operacionais (11,1%) e impactos das novas tecnologias (3,7%).

Os dados, que fazem parte da pesquisa interna da ANL sobre expectativas para o mercado em 2026, realizada em fevereiro deste ano com a rede de associados, que representa cerca de 500 lojas espalhadas por todo o Brasil, revela um setor resiliente, mas que enfrenta um ponto de inflexão estrutural. A disputa por preços, a escalada de descontos predatórios e a crescente concentração de vendas nas mãos de poucos players levantam preocupações sobre a sustentabilidade da cadeia do livro a médio prazo.



Mercado deve crescer em 2026, mas com cautelas

A pesquisa mostra que 44,4% das livrarias esperam crescimento do mercado livreiro este ano, impulsionado pela retomada gradual do setor editorial. Ainda assim, 33,3% projetam estabilidade e 18,5% acreditam em retração, indicando um ambiente de otimismo moderado, mas não eufórico.
Para Alexandre Martins Fontes, presidente da ANL, esse equilíbrio expressa um momento de transição. “O mercado livreiro brasileiro tem mostrado sinais consistentes de recuperação. Existe, sim, espaço para crescer. Porém, a estrutura competitiva mudou radicalmente: plataformas digitais operam com condições comerciais que as livrarias físicas não conseguem acompanhar. O potencial de crescimento existe, mas ele depende de um ambiente mais equilibrado para toda a cadeia”, afirma.

Nesse contexto, o início de 2026 tem sido percebido com cautela por parte dos empresários do setor. Na comparação entre janeiro deste ano com o mesmo período de 2025, 40,7% dos livreiros registraram estabilidade no fluxo de clientes, 25,9% observaram crescimento e 26% relataram queda. Segundo Samuel Seibel, proprietário da Livraria da Vila, o período apresenta maior dificuldade na comparação com o ano anterior porque “o cenário macroeconômico de 2026 começa marcado por um consumo mais cauteloso, o que acaba impactando o varejo”, afirma.



Crescimento esperado no faturamento das livrarias

Os dados indicam que 66,7% das livrarias esperam crescer em faturamento em 2026, sendo a maioria (59,3%) com aumento moderado. Apenas 3,7% projetam queda. O desempenho esperado é semelhante ao observado em 2025, mas desta vez acompanhado de maior vigilância sobre riscos de erosão de margem diante da hipercompetitividade digital.

Para isso, o livro físico segue como pilar do setor. Mesmo com o avanço do consumo digital, o livro impresso se mantém como principal motor de receita, reforçando a importância das lojas físicas como pontos de descoberta, convivência e curadoria. Cerca de 52% dos entrevistados esperam crescimento nas vendas de livros físicos, enquanto 37% preveem estabilidade e apenas 7% projetam queda.

A preferência do público pelo objeto físico, o papel das livrarias como espaços culturais e a importância da mediação presencial contribuem para a manutenção da relevância do formato tradicional. Entretanto, o crescimento moderado projetado convive com preocupações estruturais. O risco de concentração excessiva do mercado, intensificado pela agressividade comercial das grandes plataformas, é uma ameaça percebida por diversos livreiros.

Rui Campos, da Livraria Travessa e membro da ANL, reforça a gravidade do tema e conecta o debate à necessidade de políticas públicas, como a Lei Cortez, que propõe regras para frear práticas predatórias e proteger o ecossistema do livro. “O livro, justamente por ser um produto que agrega tanto valor e prestígio, é alvo de operações predadoras e que buscam a destruição do ecossistema e o fim da concorrência. Buscam o monopólio. Precisamos de políticas de estado, semelhantes às que existem em diversos países do mundo culturalmente mais avançados, para o fortalecimento do mercado livreiro e editorial brasileiro”, pontua.

Diversificação continua sendo estratégia para crescimento

Diante do cenário competitivo, a diversificação aparece como caminho para elevar ticket médio, reduzir dependência exclusiva do livro e transformar a visita às lojas em uma experiência mais rica e multissensorial. Muitas livrarias ampliaram seu portfólio com papelaria, itens culturais, presentes e colecionáveis. E a aposta segue firme para 2026. 50% dos entrevistados projetam crescimento desse segmento, enquanto 42,3% esperam estabilidade e 7,7% preveem alta intense.

Nas operações digitais, o setor demonstra maturidade ao evitar expectativas infladas. Entre as livrarias que atuam online (por sites próprios, marketplaces ou redes sociais), 33,3% esperam crescimento moderado e 23,8% acreditam em avanço significativo, enquanto 38,1% projetam estabilidade. O dado mostra que o canal digital segue relevante, mas já não é visto como via de expansão acelerada, e sim como frente complementar à operação física.

Mas a experiência presencial continua sendo o diferencial competitivo. Para Rui Campos, a força das livrarias físicas permanece na experiência cultural. “O livro segue sendo a opção mais acessível e eficiente de entretenimento e informação. Nossa estratégia passa pela arquitetura das lojas, acervo, atendimento e um calendário robusto de eventos. Só em 2025, foram mais de 1.500 eventos nas unidades da Travessa”, destaca. Esse entendimento também é compartilhado por outros players do setor. Para Samuel Seibel, a atração do público depende de um conjunto de iniciativas integradas. “Acreditamos que o que realmente faz o leitor ir até a livraria é a experiência de um bom atendimento, a possibilidade de novas descobertas e o espaço acolhedor”, destaca.

O início de 2026, porém, apresentou sinais mistos. Na comparação entre janeiro deste ano com o mesmo período de 2025, 40,7% dos livreiros registraram estabilidade no fluxo de clientes, 25,9% observaram crescimento e 26% relataram queda. Embora ainda não represente a aceleração esperada para o ano, o setor projeta avanço gradual do movimento ao longo dos próximos meses, impulsionado por ações culturais, eventos, campanhas sazonais e fortalecimento da experiência presencial.

Com quase meio século de atuação, a ANL destaca que, mesmo diante das pressões competitivas, tecnológicas e estruturais, as livrarias brasileiras demonstram resiliência. A combinação entre curadoria editorial, experiência presencial, programação cultural, diversificação e proximidade com a comunidade leitora se mantém como base de sustentação do setor. A expectativa agora é que 2026 marque não apenas a continuidade da recuperação, mas também avanços nas discussões regulatórias que permitam um ambiente de concorrência mais saudável e plural para todo o ecossistema do livro no Brasil.

SOBRE A ANL: A Associação Nacional de Livrarias (ANL) é uma associação de classe, sem fins lucrativos, que congrega livrarias, editoras e distribuidoras de livros associadas. Fundada em 5 de maio de 1978, a ANL busca incentivar o crescimento do mercado livreiro ao apoiar e incentivar a cultura e a leitura no país.